Alain (Émile-Chartier)
Não pense em ti, olhe para longe.
Tenho um interesse relativamente pulsante em livros que tratam do adoecimento mental e dos diversos significados que certos sintomas, modos de ser e de experienciar o mundo, já tiveram ao longo de nossa história, sobre como facilmente podem borrar a fronteira entre o patológico e o existencial. Por esse interesse, tenho procurado destinar uma parte da biblioteca de casa para alguns livros que alimentem essa minha curiosidade específica dentro da literatura psicológica, psiquiátrica, clínica, histórica e etc, como Estranhos a nós mesmos de Rachel Aviv, Uma biografia da depressão do Dunker, História do suicídio do Georges Minois e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu do Oliver Sacks (presente de uma amiga); fora aqueles que tratam da experiência direta de pessoas que passaram por alguma internação psiquiátrica, como o Diário do Hospício do Lima Barreto e, mais recentemente para mim, Hospício é Deus desta autora brasileira esquecida, Maura Lopes Cançado.
Mas, essa curiosidade, devo confessar, não é fruto de um interesse puramente teórico. Tem a ver com uma busca, um tanto quanto desesperada, por dar algum contorno para certos pensamentos, sentimentos, angústias internas, que embora não sejam sofridas ou sentidas exclusivamente por mim, atingem minha individualidade de modo intransferível. Nessa literatura acabo buscando um horizonte compartilhado para essas experiências inescapavelmente humanas.
Aí que, ontem, enquanto lia Alain como parte das minhas escavações para a tese, mais especificamente o seu Propos sur le Bonheur, encontrei um texto maravilhoso (ao menos eu achei), que oferece uma recomendação para a melancolia e que ressoou em algo que eu praticava (e tento ainda praticar) nos momentos onde me sinto afundar numa vida que está imersa na perspectiva de encontrar sentido e realização próprios sempre nos espaços das relações humanas (terreno instável, fonte de angústia), esquecendo que o mundo é muito mais, felizmente.
Vou transcrever aqui esse seu texto curto, de 1911:
Olhe para longe
Ao melancólico, só tenho uma coisa a dizer: “olhe para longe”. Quase sempre o melancólico é um homem que lê demais. O olho humano não foi feito para essa distância; é nos grandes espaços que ele repousa. Quando você olha as estrelas ou o horizonte do mar, seu olho está totalmente relaxado; se o olho está relaxado, a cabeça está livre, o andar é mais seguro; tudo se descontrai e se flexibiliza até as vísceras. Mas não tente se flexibilizar pela vontade; tua vontade, em ti, aplicada em ti, repuxa tudo de través e acabará por te estrangular; não pense em ti; olhe para longe.
É bem verdade que a melancolia é doença; e o médico pode, às vezes, adivinhar a causa e dar o remédio; mas esse remédio traz a atenção de volta ao corpo, e a preocupação que se tem em seguir uma dieta destrói justamente seu efeito; é por isso que o médico, se for sábio, te encaminha ao filósofo. Mas, quando você corre para o filósofo, o que encontra? Um homem que lê demais, que pensa como míope, e que é mais triste que você.
O Estado deveria manter uma escola de sabedoria como mantém de medicina. E como? Pela verdadeira ciência, que é contemplação das coisas, e poesia grande como o mundo. Pois a mecânica de nossos olhos, que repousam nos vastos horizontes, ensina-nos uma grande verdade. É preciso que o pensamento liberte o corpo e o devolva ao Universo, que é nossa verdadeira pátria. Há um profundo parentesco entre nosso destino de homem e as funções de nosso corpo. O animal, assim que as coisas próximas o deixam em paz, deita-se e dorme; o homem pensa; se é um pensamento de animal, pobre dele. Eis que ele dobra seus males e suas necessidades; eis que ele se atormenta com temor e esperança, o que faz com que seu corpo não cesse de se tensionar, de se agitar de se lançar, de se reter, segundo os jogos da imaginação; sempre desconfiando, sempre espreitando coisas e pessoas ao seu redor. E se quer se libertar, ei-lo nos livros, um universo fechado ainda, perto demais de seus olhos, perto demais de suas paixões. O pensamento cria para si uma prisão e o corpo sofre; pois dizer que o pensamento se estreita e dizer que o corpo trabalha contra si mesmo é dizer a mesma coisa. O ambicioso refaz mil vezes seus discursos, e o apaixonado mil vezes as suas preces. É preciso que o pensamento viaje e contemple, se quisermos que o corpo esteja bem.
Aonde a ciência nos conduzirá, contanto que não seja nem ambiciosa, nem faladora, nem impaciente; contanto que ela nos desvie dos livros e leve nosso olhar à distância do horizonte. É preciso, portanto, que seja percepção e viajem. Um objeto, pelas relações verdadeiras que nele descobres, te conduz a outro e a mil outros, e esse turbilhão do rio leva teu pensamento até os ventos, até as nuvens, e até os planetas. O verdadeiro saber nunca retorna a alguma coisinha muito perto dos olhos; pois saber é compreender como a menor coisa está ligada ao todo; nenhuma coisa tem sua razão em si, e assim o movimento justo nos afasta de nós mesmos; isso não é menos são para o espírito do que para os olhos. Por onde teu pensamento repousará nesse universo que é seu domínio, e se harmonizará com a vida de teu corpo que está ligada também a todas as coisas. Quando o cristão dizia: “O céu é minha pátria” ele não imaginava o quão certo estava. Olhe para longe.
Cada um pode agora tirar suas reflexões deste texto, que contém gérmens para muitas, especialmente me anima esse lampejo sobre a relação entre o justo, o afastamento de si e o verdadeiro conhecimento. Mas agora eu apenas destacaria como o texto conversa com um trecho de Uma biografia da depressão onde o Dunker afirma que a depressão, a partir do romantismo, é a doença do palco, do lugar destacado no mundo — e talvez do mundo, ser desgarrado — onde nos tornamos personagens na tragédia que escrevemos. Ela não está mais na atmosfera, como ocorria com a bílis negra. Está agora encerrada no sujeito, mas também perto demais dos olhos, atrelada demais à forma como influímos e criamos o mundo.
No que diz respeito à uma experiência e observação pessoais, fica uma inquietação com relação aos espaços (dentro e fora) que criamos, que não permitem mais preservar o horizonte, — talvez por não sabemos que ele possui para nós algum importante valor. A maior parte da minha vida eu passei morando em regiões não totalmente rurais, mas certamente nada próximo ao que é estar vivendo em uma capital. Minhas cidades quase não tinham prédios, por exemplo, ou foram tê-los só muito recentemente. Já Porto Alegre possui prédios a perder de vista. Nessas configurações de habitar, o horizonte somente reflete, como uma infinita sala de espelhos, aquilo que está perto demais dos olhos. A diferença no humor e no estado de espírito na última viagem que fiz à praia, no final do ano, e também as trilhas na mata nas terras de uma amiga, me despertam para uma consciência clara dessa falta. Mas eu só a sinto quando saio desse mundo projetado total e especialmente para a perspectiva do que é pessoal. Também funciona olhar o céu, sim. Quando há céu, já que o horizonte que poderia permanecer para ser visto em um pouco mais de altura também acaba engolido. Nos estendemos sobre o mundo em (quase) todas as direções e dimensões. Talvez a única que fique perdida nesse modelo seja a profundidade.



